Leite A2 e APLV

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O Leite A2 e a alergia à proteína do leite de vaca (APLV)

Helena F. Karsburg, MV. PhD Qualidade e Produtividade Animal FZEA/USP. Diretora Certificações Programa #BEBAMAISLEITE.

Sandra M.G. Vieira, MD, PhD Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Chefe da Unidade de Gastroenterologia Pediátrica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

 

O leite é um alimento completo, rico em nutrientes essenciais para a saúde de crianças, adolescentes, adultos e idosos. Pesquisas recentes têm mostrado os prejuízos causados por sua retirada indevida das dietas, como redução do crescimento, osteoporose e deficiências nutricionais. Os lácteos são as melhores fontes naturais de cálcio, pois apresentam a mais alta biodisponibilidade desse mineral, ou seja, o cálcio do leite ingerido é totalmente absorvido.

O consumo de lácteos vem diminuindo ao longo dos anos. Intolerância a lactose, alergia a proteína do leite de vaca, ganho de peso, moda fitness, aversão aos produtos de origem animal entre outros problemas supostamente associados ao leite fizeram com que a população reduzisse o seu consumo e o transformasse em vilão das dietas.

Neste contexto chega ao mercado brasileiro o leite contendo somente b-caseína A2 que já é realidade no mundo há mais de 15 anos. O seu consumo no mundo cresce e desperta o interesse. O mercado hoje é global e os consumidores estão atentos e buscando alternativas para suprir suas necessidades. Existem pesquisas internacionais que relatam os benefícios deste leite e os mecanismos de ação de um peptídeo chamado BCM7 (betacasomorfina 7), que é um produto da  digestão de outra molécula no trato gastrintestinal humano e no processamento do leite para fabricação de derivados (iogurtes e queijos): a b-caseína A1. O BCM7 da b-caseína A1 é atualmente, considerado um potencial fator de risco para a síndrome da intolerância ao leite de vaca, ou seja, pode prejudicar ou dificultar o processo de digestão do leite e seus derivados EM ALGUMAS pessoas. Esses efeitos no trato gastrointestinal causados pelo consumo de b-caseína A1 é o principal motivo para a recomendação do consumo do leite contendo somente a b-caseína A2.

Vamos entender melhor isso: o leite bovino é composto de proteínas (principalmente caseína e proteínas do soro), gorduras (saturadas, monoinsaturadas e ácidos graxos poli-insaturados), carboidratos (principalmente lactose e oligossacarídeos) e água. Aproximadamente um terço da fração proteica são b-caseínas. As b -caseínas são proteínas do leite insolúveis, presentes em várias formas e são determinadas pelo DNA (genoma) do animal leiteiro. Há aproximadamente dez mil anos, por uma razão desconhecida, houve uma mudança no DNA de algumas raças bovinas leiteiras principalmente as europeias, e a b -caseína, que compõe a principal proteína do leite, e que só existia a do tipo A2 passou a ter outra variante que foi chamada de b -caseína do tipo A1. Somente os bovinos sofreram esta alteração, que foi natural porem modificou a proteína. Nas demais espécies que produzem leite como as cabras, as búfalas e a própria mulher o genoma se manteve original e a b -caseína também, sem variações. Esta pequena mudança no leite pode parecer inofensiva, mas é suficiente para alterar a digestão do mesmo. Quando as enzimas digestivas interagem com a molécula de β-caseína A1, ela é quebrada, liberando o BCM-7. A presença do aminoácido prolina, em vez de histidina, na variante A2, evita a quebra (hidrólise) da molécula e assim inibe a produção de BCM-7.

De todas as proteínas presentes no leite, cerca de 80% são caseínas. As b-caseínas são compostas por 224 aminoácidos sendo as formas mais comuns no leite de bovinos as b-caseínas A1 e A2 que se diferenciam no genoma pela mudança de apenas um aminoácido na posição 67 da cadeia

Onde entra a alergia a proteína do leite de vaca nesta história? A alergia à proteína do leite de vaca (APLV) é o tipo de alergia alimentar mais comum nas crianças até 3 anos de idade e é caracterizada pela reação do sistema imunológico (de defesa) às proteínas do leite, principalmente à caseína e as proteínas do soro (a-lactoalbumina e b-lactoglobulina). É muito raro o seu diagnóstico em indivíduos acima dessa idade. Para a confirmação diagnóstica, é necessário verificar a ocorrência das seguintes condições: história clínica sugestiva da APLV; desaparecimento dos sintomas em 1 a 30 dias após retirada da proteína do leite de vaca da dieta e reaparecimento dos sintomas após reintrodução do leite (teste de provocação oral), que pode ocorrer após duas horas do teste ou em até sete dias. O diagnóstico da APLV deve ser feito por médico especialista. Em algumas situações, é possível identificar o tipo de proteína que causa a alergia, podendo ainda haver indivíduos com reação a mais de uma proteína e não somente a uma especificamente.

No caso do leite contendo apenas a b-caseína A2 o que muda é somente a fração A2, como já comentado. Sendo assim, de acordo com os conhecimentos atuais, não se pode afirmar que este produto esteja indiscutivelmente indicado como dieta substitutiva para pacientes com comprovada alergia à proteína do leite de vaca. A conduta médica na APLV baseia-se em três pontos fundamentais: estímulo ao aleitamento materno, exclusão da(s) proteína(s) alergênica(s) da dieta e prescrição de dieta substitutiva que proporcione todos os nutrientes necessários ao bom desenvolvimento dos indivíduos acometidos.

O leite contendo apenas a b-caseína A2, presente nas vacas com o genótipo A2A2, não é medicinal e nem funcional. É apenas um produto de mais fácil digestão, uma opção viável aos indivíduos que sentem desconforto à ingestão do leite, trazendo segurança e qualidade aos mais variados tipos de consumidores. Já temos fazendas no Brasil selecionando os animais e buscando formas segura com rastreabilidade e garantia de origem para poder comercializar este leite. 

 

Referências:

  1. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC). Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV). Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, 2017.
  2. de Gaudry DK, Lohner S, Schmucker C et al. Milk A1 β-casein and health-related outcomes in humans: a systematic review, Nutrition Reviews 2019; 77 (5): 278–306.
  3. Solé D, Silva RL, Cocco L et al. Consenso Brasileiro sobre Alegria Alimentar: parte 1: etiopatogenia, clínica e diagnóstico. Documento conjunto elaborado pela Sociedade Brasileira de Pediatria e Associação Brasileira de Alergia e Imunologia. Arq Asm Alerg Imunol 2018;2(1):7-38.
  4. Solé D, Silva RL, Cocco L et al. Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar: parte 2: diagnóstico, tratamento e prevenção. Documento conjunto elaborado pela Sociedade Brasileira de Pediatria e Associação Brasileira de Alergia e Imunologia. Arq Asm Alerg Imunol 2018;2(1):39-82.
  5. HE, M, SUN, J, JIANG, ZQ, YANG, YX. Effects of cow’s milk beta-casein variants on symptoms of milk intolerance in Chinese adults: a multicenter, randomized controlled study. Nutrition Journal (2017) 16:72 doi: 10.1186/s12937-017-0275-0.
  6. JIANQIN S, LEIMING X, LU X, YELLAND GW, NI J, CLARKE AJ. Effects of milk containing only A2 beta casein versus milk containing both A1 and A2 beta casein proteins on gastrointestinal physiology, symptoms of discomfort, and cognitive behavior of people with self-reported intolerance to traditional cows' milk. Nutr J. 2016 Apr 2; 15:35. doi: 10.1186/s12937-016-0147-z. Erratum in: Nutr J. 2016;15(1):45.