"Leites vegetais" reduzem o crescimento das crianças

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Um recente estudo científico de larga escala concluiu que as crianças que bebiam substitutos do leite de vaca, à base de plantas, apresentavam uma altura ligeiramente menor. Os autores especulam que o estudo fornece a primeira indicação de que o consumo cada vez mais popular de substitutos vegetais do leite pode não sustentar adequadamente os requisitos nutricionais completos de crianças em rápido crescimento.

O que determina a altura humana?

Os geneticistas concluem que a altura humana possui um forte componente genético, que representa cerca de 60 a 80% da variação de uma população, ou seja, pais altos, geralmente, produzem descendentes altos. Os 20-40% restantes da variação de altura são devidos a fatores como nutrição e doenças.

1,5m e crescendo 

O antropólogo Franz Boas identificou a forte influência do meio ambiente na altura humana há mais de cem anos. Ele observou que filhos de imigrantes para os EUA, quando adultos, eram, em média, mais altos do que seus pais. Boas atribuiu esta observação à melhor nutrição. Alguns indivíduos nunca atingem seu potencial genético completo de altura devido a influências ambientais adversas, como doenças e má nutrição. A altura é, portanto, um indicador sensível do estado de saúde.

Mudanças na altura, durante o desenvolvimento da criança, são fáceis e baratas de medir. A altura é um indicador importante da saúde de uma população e de indivíduos dentro de uma população. Isto é particularmente evidente nas populações malnutridas do mundo em desenvolvimento, que consomem proteínas insuficientes e, geralmente, são mais baixas do que as populações comparáveis que recebem nutrição adequada. De fato, a Organização Mundial da Saúde recomenda o uso generalizado de curvas de crescimento que incluam todas as idades, mas particularmente bebês e crianças, para permitir o monitoramento das populações pelas autoridades de saúde. Os indivíduos que se afastarem da faixa normal dessas curvas de crescimento podem exprimir uma saúde debilitada ou uma nutrição deficiente, indicando a necessidade de investigação médica ou alterações nutricionais. Estas intervenções são particularmente importantes para as crianças, uma vez que a nutrição inadequada ou doenças no início da vida podem ter consequências de longo prazo.

Um artigo publicado por Lauren Newmark destacou a extensa evidência de que o consumo adequado de proteína animal está positivamente associada ao crescimento e altura humana  Numerosas investigações mostraram que o leite de vaca é uma fonte rica em proteínas e aminoácidos essenciais. O consumo de leite também está positivamente associado à altura humana e promove o crescimento e desenvolvimento ótimo de crianças. 

Os tempos estão mudando 

Recentemente, tem-se observado um consumo crescente de leites alternativos, particularmente de bebidas à base de plantas como soja, arroz e amêndoas. No entanto, pouco se sabe sobre os benefícios desses substitutos do leite para a saúde das crianças. Uma equipe de cientistas, liderada por Jonathon Maguire, na University of Toronto, St Michael's Hospital e Hospital for Sick Children, investigou a associação entre a altura das crianças e o consumo de “leites” vegetais. O estudo histórico foi recentemente publicado no American Journal of Clinical Nutrition. 

Projetos importantes 

Um bom projeto e análise experimental são essenciais na pesquisa científica. Os pesquisadores de Toronto analisaram um impressionante conjunto de dados, de mais de 5.000 crianças, com idades entre 24 e 72 meses. O conjunto de dados continha informações sobre o nível de consumo infantil de leite de vaca e “leites” vegetais. Cerca de 92% do grupo consumiram leite de vaca e 13% consumiram leites alternativos, com algumas crianças consumindo ambos. Os pesquisadores usaram um índice estatístico de altura infantil em suas análises. Importante notar que eles ajustaram seus múltiplos modelos estatísticos para fatores conhecidos que têm potencial para afetar indiretamente a altura. Esses fatores de confusão incluem idade, sexo, índice de massa corporal, etnia materna, renda e altura materna.  

Principais Resultados 

Os investigadores concluíram que, para a criança mediana, cada copo de “leite” vegetal consumido por dia estava associado a uma redução de altura de 0,4 cm. Os investigadores também concluíram que o efeito das bebidas vegetais sobre a altura não era apenas devido à remoção dos benefícios positivos do leite de vaca da dieta, ou seja, o consumo de leite alternativo estava associado à redução da altura. A redução no comprimento aos três anos de idade para a criança mediana bebendo três xícaras por dia de “leite” vegetal, em comparação com a criança mediana bebendo três xícaras de leite de vaca, foi de 1,5 cm. 

Maguire e seus colegas especularam que muitas bebidas vegetais podem ter teor reduzido de proteínas, em comparação com o leite de vaca, o que poderia explicar a redução da altura no grupo que consumiu “leite” vegetal. Outros estudos também sugerem que as proteínas do “leite” à base de plantas, ao contrário das proteínas animais, muitas vezes não contêm todos os aminoácidos essenciais necessários para um ótimo crescimento e desenvolvimento humano. Os pesquisadores sugeriram ainda que o consumo de “leite” vegetal por crianças pode não induzir níveis aumentados de um promotor de crescimento natural (fator de crescimento similar a insulina 1), como acontece com o consumo de leite de vaca.

O Tribunal de Justiça Europeu decidiu, recentemente, que a palavra "leite" só se aplica aos produtos lácteos e não aos produtos à base de plantas. Outros países têm regulamentos semelhantes, embora muitas vezes estes não sejam confirmados pelas autoridades competentes. A resolução desta questão comercial pode ser necessária em muitos países.

 

Fonte: 

  1. Morency M.E., Birken C.S., Lebovic G., Chen Y., L’Abbé M., Lee G.J., et al. Association between noncow milk beverage consumption and childhood height. Am J Clin Nutr. 2017;106(2):597-602.
    2. Visscher P.M., Macgregor S., Benyamin B., Zhu G., Gordon S., Medland S., et al. Genome partitioning of genetic variation for height from 11,214 sibling pairs. Am J Hum Genet. 2007;81(5):1104-10.
    3. Visscher P.M. Sizing up human height variation. Nat Genet. 2008;40(5):489-90.
    4. Lai C-Q. How much of human height is genetic and how much is due to nutrition? : Scientific American; 2017 [Available from: https://www.scientificamerican.com/article/how-much-of-human-height/].
    5. Stocking G. A Franz Boas Reader: The Shaping of American Anthropology, 1883-1911. Chicago and London: The University of Chicago Press; 1974.
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    7. WHO. Child growth standards: methods and development Geneva (Switzerland): World Health Organisation; 2006 [Available from: http://www.who.int/childgrowth/standards/technical_report/en/].
    8. Prendergast A.J., Humphrey J.H. The stunting syndrome in developing countries. Paediatr Int Child Health. 2014;34(4):250-65.
    9. Milligan L. Milk protein in diet predicts human height. SPLASH. 2015. [Available from: http://milkgenomics.org/article/milk-protein-diet-predicts-human-height/].
    10. Wiley AS. Consumption of milk, but not other dairy products, is associated with height among US preschool children in NHANES 1999-2002. Ann Hum Biol. 2009;36(2):125-38.
    11. Wiley A.S. Does milk make children grow? Relationships between milk consumption and height in NHANES 1999-2002. Am J Hum Biol. 2005;17(4):425-41.
    12. Boland M. Global food supply: the world’s need for protein New Zealand: Riddet Institute, Massey University, New Zealand; 2013 [Available from: http://www.riddet.ac.nz/sites/default/files/content/2013%20Protein%20supply%20Mike%20Boland.pdf].
    13. Food and Agricultural Organization (FAO). Dietary protein quality evaluation in human nutrition: report of an FAO expert consultation. Rome, Italy: FAO; 2013 [Available from: http://www.fao.org/ag/humannutrition/35978-02317b979a686a57aa4593304ffc17f06.pdf].
    14. Ertl P., Knaus W., Zollitsch W. An approach to including protein quality when assessing the net contribution of livestock to human food supply. Animal. 2016;10(11):1883-9.