Pelo fim das fobias alimentares - inclusive da fobia do leite

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Para o crítico gastronômico Jeffrey Steingarten, se nascemos sem gostos ou repulsas pré-definidos em relação às comidas, temos toda a chance do mundo de liberar “o paladar e a alma” para a variedade de alimentos disponíveis. No entanto, existem (até demais) fobias e manias alimentares que soam, para ele, as mais sérias das limitações pessoais.

Temos dois fatos à nossa frente: 1) Nossos genes não determinam que tipo de gastronomia julgamos boas ou ruins; e 2) Seres humanos são onívoros. Isso quer dizer que, assim como nossos dentes, nosso sistema digestivo vem preparado para encarar toda sorte de fauna e flora. Com a exceção de que viemos ao mundo com certa tendência a consumir doces (já que recém-nascidos são capazes de distinguir entre glicose, frutose, lactose e sacarose), tudo é aprendido.

Além disso, nós, humanos, somos extremamente adaptáveis. Quando não é época de mexerica, comemos laranja. Se um restaurante há eras frequentado fecha, vamos comer em outro. Se a importação de carne de boi fica escassa, podemos passar a consumir mais peixe. E isso é algo único, diferente do que acontece com outros animais, como, por exemplo, as vacas. Elas podem até serem bem nutridas comendo só grama, mas a gente precisa de uma variedade abundante de alimentos para continuarmos saudáveis. Que tipo de onívoros seríamos se impedíssemos a nós mesmos de termos acesso a essa variedade?

Muitos fóbicos alimentares, ao invés de admitirem que recusam comidas deliciosas e nutritivas porque não arriscam vivenciá-las, se justificam usando argumentos como herança genética, nutrição, alergias, segurança alimentar e “questão de gosto” (mesmo que nunca tenham experimentado antes). Isso tudo é relacionado a diversos alimentos, mas o leite pode ser considerado o campeão deles.

De repente, há algum tempo, ficou relativamente fácil topar com um “intolerante à lactose” na rua. Essa condição pode ser até considerada moda, quando percebemos que, na verdade, pessoas atingidas por ela a ponto de o organismo não suportar sequer a ingestão de um copo de leite fazem parte de um número bem restrito. E aí mais gente que o necessário passa a evitar leites e seus derivados, como o queijo, sendo que queijos fermentados nem mesmo contêm lactose! Afinal, se a lactose é o açúcar do leite, 98% dela são drenadas na filtragem do coalho e os outros 2% são consumidos pelas bactérias produtoras de ácido lático durante a fermentação.

São tantas informações desencontradas que o receio quanto a comidas se tornaram lei, fazendo com que fobias alimentares irracionais nos atrapalhem até mesmo no prazer do ato de comer. E a falta de conhecimento acaba levando, muitas vezes, à arrogância e agressividade. Por isso, o ideal é combater a ignorância compartilhando verdades e, claro, abrindo um pouco mais a mente.

 

Fonte: “O homem que comeu de tudo”, de Jeffrey Steingarten.